O roubo da fé
Sérgio Luiz Bezerra Trindade
Professor/Estudante de Jornalismo
Não sou religioso. Muito pelo contrário, fujo dos templos desde que me entendo de gente. Nada contra as religiões. Não comungo dos preceitos de Marx, que dizia ser a religião um ópio do povo, instrumento-mor da alienação. O consumismo desenfreado é muito mais alienante. Os meios de comunicação, principalmente a televisão, contribuem mais para a alienação do que as religiões.
Professor/Estudante de Jornalismo
Não sou religioso. Muito pelo contrário, fujo dos templos desde que me entendo de gente. Nada contra as religiões. Não comungo dos preceitos de Marx, que dizia ser a religião um ópio do povo, instrumento-mor da alienação. O consumismo desenfreado é muito mais alienante. Os meios de comunicação, principalmente a televisão, contribuem mais para a alienação do que as religiões.
Mesmo não sendo religioso, percebo que todos os indivíduos tendem para algum tipo crença. O problema é quando ela – a crença – dá lugar ao fanatismo e ao fundamentalismo. Aí a situação torna-se perigosa, dada a violência que geralmente acompanha o fanático. O perigo expressa-se quando a intolerância ameaça a diferença, e quando o crente elege a sua divindade como a mais importante, negando o direito de crer, mesmo quando o outro acredita no mesmo Deus.
Quando Deus, então, entra na política em pleno século XXI, num mundo de Estados laicos, é sinal de algo muito mais grave está acontecendo. Quando fiéis são assaltados em templos religiosos em nome da fé, e sacerdotes fazem carreira política e fortuna subtraindo os tostões de gente humilde é porque as bases do mundo ocidental, erguidas no final do século XVIII, apodreceram. Pois, leitores, é isso o que está acontece no Brasil. Talvez um dia acordemos sob a bandeira da República Federativa “Cristã” do Brasil. Assim mesmo com aspas, para mostrar que de cristã ela teria muito pouco. Ou nada.
Os fatos que nos chegam são deprimentes. E aumentam de freqüência e de intensidade quando se aproximam os períodos eleitorais. As cenas inesquecíveis e cada vez mais comuns de homens de igreja sendo detidos com malas de dinheiro, apenas expõem as manifestações mais espetaculares e extravagantes dessa tendência. Para os ladrões do credo, somente o Deus que eles roubaram e de que se utilizam para roubar os fiéis é autêntico e verdadeiro. O único capaz de salvar o país, o estado ou o município (dependendo do cargo a que se candidatam) do desastre. O único que pode levar os cidadãos a experimentar as delícias da terra prometida. E é em nome dessa crença que esses líderes descobrem a terra da promissão para eles mesmos.
O cidadão brasileiro, se educado de maneira plural, estaria vacinado contra esses profetas da esperança. Descobriria o engodo das falas e a esperteza dos argumentos O simples fato de pertencer a uma religião não é suficiente para redimir ninguém. Os homens não se redimem por suas crenças, mas por suas boas ações, pelo seu bom comportamento, pela integridade do seu caráter, pela sua correção, traços que faltam a esses chefes de rebanhos.
Aquele casal de diminutivos que governa o Rio de Janeiro faz uma cruzada religiosa, e discursa sofregamente querendo levar o Deus deles a todos nós, infiéis e ímpios. O presidente Lula disse num comício no Rio de Janeiro que o estado deveria ser governado por quem entende de Deus, o bispo Marcelo Crivela. Aqui no Rio Grande do Norte sobram pastores candidatos. Nada tenho contra candidatos religiosos nem religiosos candidatos. Mas me dá um frio na espinha quando vejo discursos políticos transformados em pregação religiosa e sermões travestidos de discursos políticos. Quando alguém se faz político e nas suas falas o elemento religioso palpita, ele não está só misturando política com religião. Mas substituindo aquela por esta. E às vezes ainda se passando por mensageiro divino. Já sinto o cheiro de carne assada. Vou me converter imediatamente. Não, melhor esperar qual o Deus que governará o Brasil. Vocês sabem, não quero ficar do lado errado.

0 Comments:
Post a Comment
<< Home